No mundo da gestão de projetos, é comum ver pessoas confundindo conceitos como Lean e Scrum. Mas a verdade é que, apesar de serem diferentes e de haver um grande espaço de tempo entre o surgimento das duas metodologias, há uma relação entre Scrum e Lean que pode ser bem explorada para obter o melhor de dois mundos.

E por que combinar ambos? A resposta é que em muitos casos, o Scrum não se sustenta sozinho, necessitando de um guia que oriente toda a mentalidade da empresa, de maneira que seja possível aplicar os princípios ágeis de forma eficaz, e quer melhor “tutor” do que a filosofia Lean?

Vale ressaltar que essa combinação consiste naquilo que é chamado de modelo híbrido de gestão, em que as características de duas formas de gestão se fundem visando uma otimização nos processos gerenciais de uma organização.

Nesse artigo, vou me basear no livro Agile Scrum Master no Gerenciamento Avançado de Projetos de Vitor L. Massari, que aborda os 7 princípios fundamentais Lean e como o Scrum se conecta perfeitamente a cada um deles.

 

A filosofia Lean

 

A filosofia Lean surgiu no Japão após a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de eliminar desperdícios e promover uma busca constante por melhoria contínua.

Começando com o Lean Manufacturing, essa metodologia foi se expandindo até atingir outros ramos fora da indústria, originando vertentes como o Lean Office (para ambientes administrativos), o Lean Construction (para a construção civil) e o Lean Healthcare (para a área de saúde).

Um bom exemplo de como o Lean funciona combinado com outra metodologia é o Lean Seis Sigma, em que a combinação das duas se tornou tão natural e eficaz, que hoje nem se fala em aplicar o Seis Sigma de forma isolada.

A essa altura, você já pôde constatar a quantidade de aplicações do Lean e como ele funciona bem combinado com outra metodologia. Então vamos à relação entre Scrum e Lean.

Para isso, como já foi dito, vou abordar a relação existente entre os 7 princípios Lean e como o Scrum entra nessa história.

 

1. Eliminar desperdício

 

Uma das principais características do Scrum é organizar as etapas do projeto em Sprints, que são iterações curtas. Ou seja, essas iterações buscam trabalhar otimizando ao máximo os processos, evitando desperdícios, documentação desnecessária e burocracia.

Além disso, cada Sprint é marcada por testes feitos para identificar possíveis defeitos e falhas, evitando que eles sejam embutidos na entrega final da Sprint. Isso está totalmente de acordo com o cerne da filosofia Lean, que é eliminar desperdícios de forma consistente e contínua.

 

2. Amplificar conhecimento

 

Quando pensamos em Lean, pensamos em conhecimento compartilhado. Para uma aplicação bem sucedida desse modelo de gestão, é necessário que todas as partes envolvidas nos processos tenham conhecimento dos conceitos Lean e mais, todas as equipes de produção devem trabalhar de forma coordenada e em conjunto.

Adivinha? No Scrum, acontece a mesma coisa. No desenvolvimento do produto, todas as equipes Scrum precisam estar alinhadas, e é importante que elas interajam o tempo todo, compartilhando conhecimento e aprimorando umas as outras.

Podemos ver isso acontecer na prática através das Daily Scrums, que são reuniões feitas antes de se iniciar o trabalho do dia, nas quais o trabalho do dia anterior é revisado, com cada parte do time Scrum expondo os desafios enfrentados na realização de seu trabalho.

É nessas reuniões que é definido o trabalho a ser realizado durante todo o dia, direcionando alguém para ajudar um integrante com alguma dificuldade em sua tarefa, por exemplo. Assim, cada vez mais o conhecimento se amplia entre os membros, o que é uma clara demonstração da relação entre Scrum e Lean. Lembre-se de que o desperdício de conhecimento é um dos 8 desperdícios Lean.

 

3. Entregas rápidas

 

Nesse ponto, voltamos à questão das Sprints, que têm como premissa um tempo de duração de no máximo quatro semanas. Nessas iterações rápidas, o trabalho é feito de forma a agregar o máximo de valor ao cliente, que é representado pelo Product Owner.

E quem é que fala sobre agregar valor ao cliente reduzindo o Lead Time? Isso mesmo, a metodologia Lean. E por que é bom trabalhar em entregas rápidas e curtas? Porque, dessa forma, quaisquer mudanças que sejam necessárias podem facilmente ser incorporadas ao projeto.

 

4. Adiar decisões

 

Sim, você leu certo. Talvez tenha ficado confuso, mas permita-me explicar. Na aplicação do Scrum, quando falamos em tomada de decisão nesse tópico, estamos falando em definir de forma conclusiva o rumo do projeto, o que contraria a natureza dos métodos ágeis, que visa a adaptação a mudanças.

Afinal, umas das quatro premissas básicas do Manifesto Ágil é “responder a mudanças mais que seguir um plano”. Ou seja, embora haja um plano e um objetivo traçado, é mais importante estar preparado para responder a mudanças do que se ater de forma rígida ao plano.

A mesma coisa acontece no Lean, principalmente através da aplicação do ciclo PDCA, que como o nome sugere, se trata de promover melhorias de forma contínua e responder a quaisquer mudanças e incompatibilidade que venha surgir no processo.

Assim, adiamos as decisões, pois em processos empíricos, o conhecimento é melhor adquirido através da experiência. Requisitos prioritários devem estar bem detalhados, enquanto os menos prioritários não precisam de muitos detalhes. Quanto aos requisitos de longo prazo, devem ser tratados como uma visão.

 

5. Fortalecer a equipe

 

Muito relacionado ao segundo princípio, ter uma equipe fortalecida é essencial para as duas metodologias. Isso acontece ao mostrar a cada integrante da equipe sua função e como sua contribuição é altamente crucial para o desenvolvimento de todo o time e do projeto.

Ao engajar toda a equipe, a produtividade cresce de forma significativa, o que é exatamente o propósito de se estreitar a relação entre Scrum e Lean. Com isso, é alcançada uma maturidade na auto-organização da equipe.

 

6. Construir qualidade

 

Como você já deve ter percebido, todo o trabalho e todo o esforço envolvido tem um objetivo: construir qualidade para o cliente. Para isso, protótipos são mostrados ao Product Owner e demais partes interessadas, defeitos são identificados durante a Sprint e são eliminados.

E quando se fala em qualidade, estamos falando em Lean. Afinal, essa metodologia é um das principais na Gestão da Qualidade. Quanto a esse a princípio, conectar os pontos é relativamente bem simples, pois se você trabalha para eliminar desperdícios, reduzir o tempo do processo e agregar valor ao cliente, você está construindo qualidade.

 

7. Otimizar o todo

 

A definição de sucesso tanto no Lean quanto no Scrum é de que esse sucesso é gerado não pelo trabalho individual de cada integrante, mas pelo trabalho em equipe de forma colaborativa.

Basta pensar de onde surgiu o termo Scrum. Você sabe? Scrum é uma jogada do rúgbi, em que todos os jogadores se unem em uma espécie de corrente para lutar por uma posição de campo. Agora, tudo fica ainda mais claro, não é mesmo?

A seguinte frase de Ayrton Senna ilustra bem isso:

“Eu sou parte de uma equipe. Então, quando venço, não sou eu apenas quem vence. De certa forma, termino o trabalho de um grupo enorme de pessoas!”

 

E aí, ficou claro?

 

Agora, espero que a relação entre Scrum e Lean tenha ficado bem clara depois dessa comparação entre essas duas metodologias extremamente eficazes no processo de desenvolvimento de um projeto.

O Scrum já se tornou uma referência no gerenciamento de projetos de forma ágil e adaptada a mudanças, o que combina principalmente com o desenvolvimento de softwares, onde o cenário é dinâmico e instável.

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